Jornada de Estudos Entre Brasis

A 11 de Fevereiro, o Núcleo de Pensamento e Música do CESEM organiza a Jornada de Estudos “Entre Brasis”, no auditório B2 da NOVA FCSH. Contando com a participação de Clara Rowland (IELT/NOVA FCSH), Joana Matos Frias (FLUL), Ruy Filho (FLUL), Guilherme Granato (CESEM/NOVA FCSH), Caio Priori-dos-Santos (CESEM/NOVA FCSH), Rafael Lopes (CESEM/NOVA FCSH), Filipe Campello (Universidade Federal de Pernambuco), Victor Hugo Amaro (Universidade Federal de Pernambuco) e Gabriel Marotti (Universidade Federal de São Paulo), o encontro culminará com uma palestra-concerto do músico e ensaísta José Miguel Wisnik (USP). Organizado por membros e colaboradores do CESEM, com a coordenação de Juliana Wady, o evento promove o diálogo em torno e para além da exposição “Complexo Brasil” (patente na Fundação Calouste Gulbenkian até 17 de Fevereiro).
No cenário cultural e académico brasileiro, o início da década de 2020 tem renovado as discussões em torno do legado artístico e identitário do país – um legado forjado, sobretudo, ao longo do século XX no cruzamento entre pensamento artístico, cultural e social. Passado mais de um século da emblemática Semana de Arte Moderna de 1922, o Brasil parece convidado a abandonar a noção de uma identidade una e essencialista, abrindo-se à ideia de Brasis, no plural, como tentativa de apreender a multiplicidade que compõe o tecido vivo da nação. Essa multiplicidade manifesta-se em vozes fragmentadas, híbridas, oriundas de diferentes territórios e contextos – urbanos, periféricos, rurais, indígenas, afro-diaspóricos, LGBTQIA+, regionais –, que se cruzam e se escutam, articulando experiências e reivindicações diversas.
A noção de “Brasis” emerge, assim, como resposta ao esgotamento de um núcleo imaginário de nação que, por décadas, foi simbolicamente associado à MPB e à sua narrativa estética e política dominante. Esta narrativa, fundada na busca por sínteses culturais e na pretensão de representar uma totalidade nacional, constituiu o eixo simbólico de um projeto que conciliava singularidade e modernidade. Contudo, a partir dos anos 1990, com o fracasso do projeto de modernização desenvolvimentista, tal ideal de conciliação passa a ser tensionado. No plano cultural, múltiplas expressões estéticas passam a reivindicar legitimidade, não mais sob o signo da “Nação”, mas desde lugares situados, marcados por especificidades identitárias, territoriais, raciais, de género e de classe. O resultado é um deslocamento do antigo centro simbólico: não mais a voz una da nação, mas uma constelação de vozes que falam a partir da diferença.
Nesse contexto, o diálogo entre linguagens artísticas torna-se um dispositivo crítico fundamental. Não apenas reflectindo a heterogeneidade da produção contemporânea, mas também problematizando a própria ideia de “identidade nacional”, ao evidenciar que o Brasil se constrói justamente nas fricções entre formas, discursos e experiências. É por meio desse entrelaçamento de linguagens e perspectivas que se reconfigura o olhar sobre o país e suas representações: um olhar que reconhece os Brasis como um campo dinâmico de disputas simbólicas e de reinvenções contínuas.
Como não poderia deixar de ser, diante de laços não apenas (pós)coloniais, mas também da presença crescente da diáspora brasileira que reinventa este lado do Atlântico, Portugal tem olhado com atenção para Este Brasil repensado à luz do século XXI. Este Brasil é, justamente, o título e o mote da mais recente edição da revista Colóquio, publicada por ocasião da exposição “Complexo Brasil”, na Fundação Calouste Gulbenkian. Pensando o Brasil de hoje sem perder de vista o de ontem, esse número e essa exposição propõem reflexões que servem de ponto de partida para esta jornada de estudos. Trazendo a discussão para o âmbito académico a partir de Grupo de Teoria Crítica e Comunicação (GTCC) do CESEM, busca-se, num olhar entre disciplinas, questionar lugares-comuns do pensamento artístico brasileiro à luz das recentes transformações e das complexas relações luso-brasileiras.
Comissão organizadora: Juliana Wady (coordenação), Guilherme Granato, Filipe Campello, Victor Hugo Amaro e Gabriel Marotti.
O programa completo será divulgado em breve.